Prémios Pfizer 2019: Projetos vencedores apresentam avanços na investigação sobre o autismo e o cancro da mama

Já são conhecidos os grandes vencedores da 63ª edição dos Prémios Pfizer – o mais antigo galardão na área da Investigação Biomédica atribuído em Portugal, com o objetivo de contribuir para a dinamização da investigação em ciências da saúde no nosso país.

PRÉMIO PFIZER 2019 - INVESTIGAÇÃO CLÍNICA foi atribuído à investigação coordenada pela investigadora Guadalupe Cabral, do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC) da NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas da Universidade NOVA de Lisboa, com um trabalho na área do cancro da mama, uma das principais causas de morte por cancro de mulheres jovens.

A investigação liderada por João Peça, do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) e docente no Departamento de Ciências da Vida, FCT, Universidade de Coimbra, na área do autismo, foi indicado pelo júri da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa como o PRÉMIO PFIZER 2019 - INVESTIGAÇÃO BÁSICA.

A cerimónia da entrega dos prémios, no valor total de 50 mil euros, terá lugar esta tarde (14 de novembro), no Teatro Thalia, em Lisboa, contando com a presença do presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, Luís Graça e do diretor-geral da Pfizer Portugal, Paulo Teixeira.
No evento que celebra os 63 anos dos Prémios Pfizer, a palestra de abertura da cerimónia de entrega dos Prémios, sob o tema "A saúde da Ciência" será proferida por Nadim Habib, Mestre em Economia pela London School of Economics, consultor internacional nas áreas de estratégia, inovação e criatividade e atualmente Professor Auxiliar convidado na Nova SBE.

A Cerimónia será também transmitida em live streaming na página de Facebook da Sociedade de Ciências Médicas, a partir das 18h00.
https://www.facebook.com/sociedadedascienciasmedicasdelisboa/

 

PRÉMIO PFIZER 2019 – INVESTIGAÇÃO BÁSICA| Abnormal mGluR-mediated synaptic plasticity and autism-like behaviours in Gprasp2 mutant mice

Na categoria de investigação básica, o projeto vencedor é assinado pela equipa do Investigador João Peça, do Centro de Neurociências e Biologia Celular, FCT, Universidade de Coimbra, na área do autismo, recentemente publicado na revista Nature Communications.

Os distúrbios de neurodesenvolvimento são condições que aparecem na infância, geralmente antes da idade escolar, e que afetam o desenvolvimento pessoal, social e académico.

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma perturbação do desenvolvimento que tem início nos primeiros anos de vida, e que se caracteriza por alterações nos comportamentos sociais, na comunicação e no aumento de comportamentos repetitivos. As crianças podem manifestar vários graus de severidade, variando do ligeiro ao severo. Embora nem sempre se consiga identificar a causa para o aparecimento deste transtorno, num número significativo de casos as mutações e alterações nos genes são responsáveis pela patologia. Graças aos avanços científicos da última década, já estão identificados mais de 300 genes a que chamamos "genes de suscetibilidade ao autismo". No entanto, não existe cura para o TEA, e cada mutação genética pode causar uma série de complicações únicas. Deste modo, uma das maiores dificuldades em investigar novas terapias passa pela heterogeneidade dos "alvos terapêuticos".

O trabalho da equipa de João Peça focou-se na compreensão de um gene em particular - Gprasp2. O Gprasp2 é um alvo molecular muito interessante uma vez que regula uma via de sinalização neuronal que está alterada em vários casos de TEA. Assim, embora o gene Gprasp2 seja responsável por uma pequena percentagem das mutações conhecidas, devido à sua função molecular, esta proteína poderá servir como um alvo terapêutico para um diverso leque de indivíduos.

Para testar esta hipótese foi criado um novo animal modelo que permitiu avaliar a função deste gene nas vias de sinalização neuronais. Ao mesmo tempo, com este foi desenvolvida uma plataforma que no futuro poderá ajudar no teste de terapias com potencial valor para um elevado número de indivíduos com TEA.

"Com este estudo pretendemos ter um conhecimento mais profundo sobre determinados aspetos importantes da patologia do autismo. O nosso trabalho é o primeiro a olhar para o gene GPRASP2 em detalhe. Achamos que este é um alvo interessante pois poderá ser utilizado na regulação de múltiplas formas desta doença", descreve João Peça, líder da equipa de investigação.

PRÉMIO PFIZER 2019- INVESTIGAÇÃO CLÍNICA | HLA-DR in Cytotoxic T Lymphocytes predicts breast cancer patients' response to neoadjuvant chemotherapy
O projeto distinguido na categoria de investigação clínica, liderado pela investigadora Guadalupe Cabral, foi publicado na revista Frontiers in Immunology no final de 2018. Esta investigação, resultante de uma colaboração com o Instituto CUF de Oncologia, no âmbito do do TagusTANK, um consórcio da José de Mello Saúde/CUF com a Universidade NOVA de Lisboa, identificou um marcador preditivo de resposta à Quimioterapia Neoadjuvante em mulheres com cancro da mama.

O cancro da mama é uma das principais causas de morte por cancro na população feminina. A quimioterapia neoadjuvante (QNA) é o tratamento habitual no caso de cancro da mama localmente avançado, embora muitas doentes não respondam a esta terapêutica. Assim, é urgente encontrar marcadores preditivos da resposta a este tratamento convencional e estabelecer terapias alternativas, mais personalizadas. Tem sido sugerido que os efeitos da quimioterapia dependem da contribuição dos linfócitos infiltrados no tumor. No entanto, as células tumorais conseguem diminuir a atividade destes e o valor preditivo destas células é discutível. Esta investigação demonstra que a percentagem de linfócitos no tecido tumoral não é suficiente para prever a resposta à QNA, mas que o tipo (nomeadamente os linfócitos T citotóxicos) e o seu estado de ativação (quantificável pela expressão de HLA-DR) preveem esta resposta com elevada precisão. De facto, verificou-se que doentes que responderam bem à QNA tinham, na biópsia, um elevado número de linfócitos T citotóxicos a expressar HLA-DR, contrariamente aos doentes que não responderam. Estes linfócitos produzem moléculas características da sua habilidade para destruir células "indesejadas", como as células tumorais, o que pode explicar o seu contributo para o sucesso da QNA. Este marcador também é mais prevalente em doentes cuja doença ainda não está espalhada para o nódulo linfático.
Adicionalmente, o nível de HLA-DR nestes linfócitos correlaciona-se negativamente com características promotoras do tumor, reforçando a ideia de que este é um forte marcador preditivo da resposta à QNA, relevante para a tomada de decisões terapêuticas.

Segundo a investigadora Guadalupe Cabral "A implementação deste marcador na prática clínica, pode ajudar a decidir se a doente vai beneficiar do tratamento convencional ou se deve ser prontamente direcionada para um tratamento alternativo com maior probabilidade de sucesso".

 

No passado, já receberam esta distinção reputados investigadores portugueses como João Lobo Antunes (1960 e 1969), António Damásio (1974), Alexandre Castro Caldas (1974, 1976 e 1999), Maria Carmo-Fonseca (1981, 1987, 1989, 1995, 2002 e 2011), Miguel Castelo Branco (2005 e 2006), Miguel Soares (2009), Mónica Bettencourt Dias (2007 e 2012), Bruno Silva-Santos (2009), Henrique Veiga-Fernandes (2014), Maria Manuel Mota (2017), Céu Figueiredo (2018), Mariana Gomes de Pinho (2018), entre tantos outros investigadores.